12 de abr de 2010

Cidade maravilhosa da semana passada

"A corda sempre arrebenta para o lado dos mais fracos."
Fracos?
Fracos por não terem condições de morarem em lugares com condições de vida mais dignas?
Fracos por acordarem mais cedo que muitos, lutando contra um mundo que exclui de maneira drástica os que não se encaixam na nata da sociedade?
"Deus ajuda quem cedo madruga." - Não é o que diz o ditado?
Fracas são as mães que deixam seus filhos para cuidarem dos filhos de outras mães? No primeiro andar de um prédio da Vieira Souto. Fazem isso por fraqueza porque, de outra maneira, seus filhos não terão o que comer.
Fracos são aqueles que choram por verem suas casas vindo abaixo?
Fraca é a mídia? Que expõe durante uma semana inteira a fragilidade de muitos. (Quanta frieza ao retratar casos e mais casos). São apenas casos. E como amanhã a notícia será outra, vamos aproveitar a notícia-pão-nosso-de-cada-dia.
Acho que todos já viram o anúncio que divulgaram na televisão, alertando a população sobre o perigo de chuvas torrenciais. "Não mexa em fiação. Não nade. Não saia de casa. etc... SE SUA CASA FOI MARCADA E ESTÁ EM RISCO, SAIA IMEDIATAMENTE. É PREFERÍVEL ESTAR DESABRIGADO, DO QUE ESTAR SOTERRADO" (não exatamente estas palavras).
Grande anúncio. Então não seria preferível, e mais correto, as autoridades públicas avaliarem e impedirem a construção de casas em terrenos irregulares, a fim de evitar o que aconteceu em diversos morros da região metropolitana? É muito mais fácil abandonar sua casa, com os poucos pertences difíceis de uma vida muito "fácil", e vê-la desmoronando. Adendo: ficar sem casa é mais fácil ainda. Morrer soterrado ou perder a família também é outra saída, não se esqueçam!
Sabem o que ouvi? "É um controle natural do crescimento de toda essa gente!"
Para terminar eu gostaria de dizer que sinto vergonha. Não vivenciei um pingo do que muita gente enfrentou semana passada.
E a entrevista que mais me emocionou não foi a da menina Laura, do Jornal Nacional, ou seja lá qual for o nome dela. Foi a de uma moça que não chorou, não ganhou destaque, recebeu dez segundos de jornal. Seu olhar era desesperado em silêncio. Não olhou pra câmera. Não morreu, mas a voz não era a de uma pessoa viva.
- Eu não consegui salvar minha irmã. Nem meu sobrinho. A casa dela simplesmente caiu e eu não pude fazer nada. Sinto vergonha de mim mesma.

2 comentários:

  1. Como assim "É um controle natural do crescimento de toda essa gente!"??? Quem teve a capacidade de dizer uma coisa dessas?!

    Se existe algum fraco nessa história, certamente não é a pessoa do lado que a corda arrebentou. Muito pelo contrário, eles são extremamente fortes. Fracos são aqueles que pensam que o mundo acabou por um probleminha de nada.

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  2. Amiga, concordo com você.
    Essa "fraqueza" é a fraqueza do poder público, que não consegue amparar essas pessoas normalmente e muito menos no caso de desgraças assim.
    Cidade nem tão maravilhosa assim. Que preparo é esse pra ser capaz de sediar uma copa?! Temos problemas tão antigos e que ninguém se propõe a resolver e ainda querem nos arranjar mais "despesas"!
    Lelê.

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