30 de mar de 2011

O olhar de Minerva

Bombeiros na fachada da UFRJ, na Av. Pasteur
Sei que muita gente já sabe sobre o incêndio que ocorreu no campus da UFRJ na Praia Vermelha. Muita gente viu (ou leu, ouviu), mas ninguém viu o que eu vi. Todos sabem que uma pessoa preserva os seus valores e todo mundo é dotado de um acervo memorial e sentimental que só existe em unicidade, pois ninguém consegue viver duas vidas ao mesmo tempo. O que você carrega até hoje dentro de si, faz parte de um conjunto de memórias que ninguém mais possui: só você. Mesmo que uma mesma cena tenha sido vivida por você e outros tantos, nada é igual. Naquele momento, o que você viu, sentiu, pensou, marcou como importante e contará para uma pessoa se diferenciará por completo do momento do outro. 

Falo isso por dois motivos. O primeiro é porque a minha história com a UFRJ é um capítulo à parte na minha vida; o segundo, porque ontem eu vi uma tristeza que me impressionou bastante. Quando eu passei para a PUC, no ano de 2009, eu não esperava ver meu pai pagando faculdade particular. Ficar um ano inteiro fazendo pré-vestibular, se matando de estudar (verdadeiramente) E não passar para onde você mais queria, traumatiza. Traumatiza mais ainda quando você percebe seus pais adoecendo tentando pagar uma faculdade - como parte física e institucional, não me referindo a certas pessoas que levo com muito carinho e admiração - que não condizia (nem condiz) com a minha realidade. Não me refiro à realidade financeira - mesmo sendo verdade que não tenho condições de bancar uma puc - mas me refiro à realidade de espírito. Mas a grande surpresa foi que, sozinha, eu consegui recuperar minha segurança e passei para as duas faculdades federais do Rio de Janeiro. Sozinha e estudando ao mesmo para vestibular e para provas, trabalhos e projetos de final de semestre da faculdade.

Eu gosto de manter essa história só comigo por medo de outras pessoas me acharem esnobe. Mas descobri que medo é - também - não saber valorizar nossas pequenas conquistas, principalmente aquelas que nos trazem paz de espírito e a capacidade de nos fazer acreditar. Depois de um ano inteiro tentando tirar a UFRJ de dentro de mim, tive que reaprender a conviver com ela, sem me dar conta de tamanho valor. Mas para a minha surpresa, reconheci o clima tão acolhedor do meu amado Colégio Pedro II. E costumo dizer que só sendo um aluno do Pedro II para saber do que estou falando. Não é sua segunda casa: É a SUA casa.

 Vista de dentro da faculdade, com o prédio ainda com focos de fogo nas janelas. Detalhe para o céu que aparece do outro lado da janela: o teto já tinha desabado.
Ontem, quando o prédio inteiro pegou fogo, eu o senti chorando, como se tivesse vida. Essa é a capacidade do ser humano em ver emoção e sentimento em algo material. E o meu valor material em relação à UFRJ me lembra que dou muito valor a cada metro quadrado que existe naquele campus, que durante quatro anos eu vou compartilhar minha vida com ela e que eu sei novamente o que é o sentimento de pertencimento. 


A estátua da Minerva, no canto esquerdo, bem no topo
No topo do prédio, bem no cantinho esquerdo (para quem olha de dentro da UFRJ) existe a estátua de uma Minerva, símbolo da Universidade. Eu tenho um amigo, que na época que ele entrou lá - um período antes do meu - ele costumava dizer que estava tendo um caso de amor com a Minerva. "To indo me encontrar com a Minerva" ou "Hoje eu sou só da Minerva". Pois bem, você me conquistou Minerva e é pra vida inteira, tal qual o Pedro II.

Pra construir leva tempo, enquanto destruição é uma questão de segundos. Mas reconstrução ensina mais, muito mais. A Minerva sabe do que estou falando.

Bombeiros dentro do Palácio Universitário tentando conter o fogo

Mangueiras do corpo dos bombeiros bombeando água do mar, no Iate Clube, pois não havia água suficiente
*Fotos tiradas com o celular do meu namorado.

6 comentários:

  1. Sério, curti muito e eu entendo.
    Entendo o sentimento que você tem, porque é Pedro II all over it. Além do que eu sei que a UFRJ tem muito um sentido de amadurecimento para você e isso dói. E como!
    Enfim, um texto lindo e tristemente apaixonante! (Isa aliás comentou como vc escreve bem! ^^)
    Beijos, lindinha!

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  2. xuxu, como sempre você me emocionou...
    Mesmo não estudando na UFRJ fiquei muuuuito triste com isso tudo.. mas vocês conseguem, tenho certeza =]
    beijos e saudades!

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  3. é estranho, a sensação que eu tive era mais ou menos como se um parente muito próximo tivesse sofrido um acidente. foi muito muito triste, mas pelo menos parece que ela está se recuperando bem =)
    Clarice

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