Fui ao Cinema São Luiz no domingo, dia 3 de abril, às 18:30, com meu filho adulto e a namorada para ver um filme, que estava lotado. Para não perder a viagem, resolvemos ver outro, sabendo que não devia ser grande coisa, mas como era em 3D e tinha um bom protagonista, talvez servisse como diversão. O nome já sugeria violência: Fúria sobre Rodas.Ainda demos uma chance, achando que podia ser um filme estilo Tarantino, com violência explícita, mas com algum propósito e requinte. Ledo engano.
Embora o filme não fosse recomendado para menores de 16 anos – aliás, não recomento nem para maiores -, exatamente na nossa frente estava uma “mãe” com um menino de uns cinco anos, acompanhados de outras pessoas. Durante os trailers o menino falou bem alto: “Mãe, tenho medo de monstro!”, e o cinema todo riu, inclusive eu. No entanto, quando o filme começou, a primeira cena era alguém levantando a mão e levando um tiro que fez a mão ser arrancada e voar em direção a nossa cara – em 3D -, acompanhada de esguichos de sangue. O garoto começou a chorar e, numa demonstração de bom senso, pediu: “Quero ir embora!” Qual não foi nossa surpresa, então, ao ouvir a mãe dizer: “Cala a boca!” e continuar vendo o filme
Não pude ficar quieta. Falei alto: ”Vai embora, esse filme não é pra criança!” e a moça que os acompanhava falou: “É que ela não sabia que o filme era assim...” Eu respondi: “Tudo bem, mas agora já sabe e o menino está chorando, vai embora!” Aí a “mãe” vira-se pra trás e diz:”Não se mete” e eu respondo “Você não tem responsabilidade pra ser mãe, isso é abuso infantil, vou chamar o Juizado de Menores”, ao que ela retrucou “Então chama!”
A essas alturas, meu filho – de 25 anos e não de cinco – já tinha se levantado pra chamar o gerente e eu fui atrás. Quando cheguei lá fora ele vinha com o gerente e eu disse: “Tem uma mulher com uma criança chorando e querendo ir embora, vocês não vão tomar uma atitude? Como essa criança entrou nesse filme?” O gerente me respondeu que, infelizmente, ele não podia fazer nada porque a “mãe” havia “se responsabilizado” pela entrada da criança. Que lei é essa? Como é que é isso? Se uma “mãe” ou um “pai” se “responsabilizar” por entrar num filme pornográfico ou de extrema violência com uma criança, PODE? Cadê o Estatuto da Criança e do Adolescente?
Nesse momento, a “mãe” saiu do cinema com o pobre do menino - olhões arregalados - e foi direto reclamar com o gerente, dizendo que tinha perguntado na bilheteria se o filme “dava” pro garoto ver e tinham dito que sim. Mas essa era a preocupação dela – ter o dinheiro de volta, no que ela não está errada. Errado está o cinema em deixar uma criança entrar num filme trash de apologia à violência e a mãe, evidentemente, em não atender ao apelo da única criatura com bom senso nessa história – a criança. Mas se existe relamente uma lei que diz que o adulto pode se responsabilizar pela criança numa circunstância como essa, será que essa lei prevê casos como esse? Não seria o caso de reavaliá-la e inserir alguns outros parâmetros?
Pode ser que eles tenham, como nós, ido ao cinema para ver outro filme – próprio para crianças – e não tenham conseguido entrar, então tentaram outro. Não sou a favor da censura, mas a favor do bom senso. Num caso como esse, se a gerência do cinema não o teve, em prol de arrecadar mais uns caraminguás, nem a “mãe” do garoto, criatura abusadora, sem consciência nem preparo para o papel de mãe, querendo que a criança visse aquilo porque ela queria se “divertir”, quem deveria proteger essa criança?
Quando os adolescentes manifestam violência e desequilíbrio, todo mundo quer saber por que. Jovens despreparadas engravidam e criam seus filhos de qualquer jeito, sem noção da responsabilidade e das conseqüências para a cabeça da criança daquilo a que ela é exposta na infância. Provavelmente foram abusadas e replicam o abuso com seus filhos. Aí está um exemplo de como se formam esses jovens, que depois serão julgados como “casos perdidos”... E eu me arrependi amargamente de ter entrado naquele cinema. Saí mal, por não conseguir avaliar o que foi pior: o filme ou a inacreditável experiência. Pelo menos, serviu pra poupar o menino...se é que ele ainda não levou uns cascudos por ter chorado...
Elisa Oswaldo-Cruz Marinho
Editora do Núcleo de Comunicação da Academia Brasileira de Ciências
Mãe de dois filhos