28 de out. de 2009

Um balanço de morangos.

- O que você tá vendo?
- Eu vejo um coelho...
- Aonde?
- Ali - uma mão pequenina aponta para o céu - entre aquela nuvem gorda e a outra mais esprimidinha.
A menina olha sorrindo para o menino e também pergunta:
- E você?
O rosto compenetrado da criança analisa para então se desfazer num largo sorriso.
- Tá preparada?
- Por quê?
- Porque o meu dragão daqui a pouco vai comer o seu coelho.
A menina se levanta do chão com um olhar desafiante. Carregava nos cabelos cacheados um bocado de grama e pequenas pétalas cor de sol. Aos seus pés, o menino a olhava com dificuldade por causa da claridade.
- Tolinho. Nuvens não tem pés. Como que seu dragão vai comer meu coelho?
- Você duvida?
Marcela arregala seus olhos azuis cheios de certeza e encara Pedro por alguns segundos.
- Meu pai me explicou como a Terra muda de lugar. A gente gira sem perceber! Mas eu ainda desconfio que as minhas tonturas tem alguma coisa a ver com essa mudança de lugar toda hora. Nós damos uma volta ao redor do sol em um ano e nosso planeta gira em torno de si mesmo todo dia. Eu aposto que você não sabia essas coisas. Mas se você quer saber eu não gosto disso. E se no meio desse caminho todo a gente encontra uma nave espacial com um monte de et's ou então um cometa cai na terra! Meu pai disse que isso não é possível... mas pra mim tudo é possível! E se você olhar pra cima de novo você vai perceber que meu dragão já acabou de comer o seu coelho. Ele disse que tá satisfeito.
A pequena criança despenca sua cabeça para trás e olha uma, duas, três vezes e não encontra mais o que há poucos segundos estava lá.
- Como ele foi embora?
- Quem mandou ele ser gordo daquele jeito? O Max não comia fazia um tempão.
- Eu tinha gostado dele. Ele parecia um algodão-doce.
Pedro pega em sua mão e diz:
- Se você quiser eu peço pro Max cuspir ele de volta.
- Deixa pra lá. Eu quero ir pro balanço.
- Eu to com fome.
- Vamos pro balanço e eu divido com você os morangos que a minha mãe colocou pra mim na mochila.
- Então tá...
Os dois se levantam cheios de vida e luz. Uma luz daquelas que só as crianças possuem e conseguem transmitir. Embalados pela amizade e pelo balanço, não deixaram um moranguinho para terminar a história.


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Ouçam e vejam: Strawberry swing - Coldplay
uma ótima semana :)

18 de out. de 2009

Vai uma barbie aí? Não, me dá uma cerveja.

Hoje o dia foi tenso aqui no Rio (mais especificamente na área onde eu moro). Helicóptero da polícia caindo, invasão de morro, ônibus queimados e dezenas de jornais metendo o pau no Rio. Já esperava. Amanhã começa tudo de novo e assim continua até as Olimpíadas. Fazer o que né?

Depois de algumas horas sentada estudando, saí. Fiquei umas três horinhas em um pé-sujo com uns amigos. Cheguei por volta das nove da noite. Exatamente na hora em que a matinê (festa em boates para menores de 18) estava terminando. Quando o dono do estabelecimento começou a colocar todos para fora, pasmei! Eram crianças - literalmente - saindo daquele lugar. Meninas com 11 ou 12 anos bebendo smirnoff. Todas seguiam um padrão de roupa: blusas frente única, shortinho (variando com calça jeans no máximo), salto alto, maquiagem, muitas bijuterias. Como a boate é do lado dos bares, as meninas praticamente atiravam-se nos homens que estavam sentados. Ou seja, pirralhinhos crente crente que são adultos.

Eu me pergunto: por onde andam os pais (se é que podem ser chamados de pais)? Como essa banalização da infância é tão presente nos dias de hoje? Gente a infância é a época mais rica e mágica de todas! A pureza, inocência, brincadeiras saudáveis, sonhos dão lugar ao erotismo, preocupação com o corpo, roupas de marca, beijo na boca e bebida.

Depois de um tempo refletindo tristemente na mesa do bar, observei uma mãe chegando ao local e procurando por sua filha. Como elas estavam perto da minha mesa, consegui entreouvir a conversa:


Mãe: - É pra isso que você pediu pra vir? Como que esse troço (a boate) permite uma coisa dessas? Tem gente de dez anos aqui! Da próxima vez você não vem!!! Vai pro carro!

Pelo menos uma cabeça funcionando. Enquanto meus (futuros) filhos pedirem para brincar, serei a mãe mais feliz deste mundo.

13 de out. de 2009

Ser ou não ser. Eis a questão.

Cheguei à universidade e a primeira coisa que eu ouvi do meu professor de jornalismo é que no Rio existe uma concentração da mídia. Ou seja, dificilmente você encontra uma realidade sobre os fatos segundo o outro lado da moeda. Eu sempre ouvi dizer que um jornalista está a serviço da sociedade, e não a serviço de uma empresa. Mas, nenhuma surpresa, não é isso o que acontece.
Por isso, a quantidade de vezes que já ouvi: "Você deve ser uma jornalista honesta" ou "Se você está pensando que vai conseguir escrever o que quer, está enganada". Sim, eu sei disso tudo. É como se existisse um livro contendo intruções e passos: "Os cem passos para se chegar ao jornalismo!".
Só que até mesmo essas intruções se contradizem:
1. Você deve buscar a verdade e informá-la ao público, não importa o quanto custe (nem o quão verdadeira ela será)
2. Leia todos os jornais todos os dias
3. Saiba escrever muito bem, ter uma sinapse boa, sem falar da capacidade crítica.
4. Precisa dizer que é necessário saber sobre tudo um pouco?
...
Com o que eu ouço dá pra montar um livro. Mas eu discordo. Jornalismo não é um ritual. Você até pode seguir o Passo 1 e o Passo 2 e chegar lá. Mas quem está fazendo a faculdade porque gosta, independente da obrigatoriedade do diploma, sabe que existe uma essência. Quase uma arte.

8 de out. de 2009

simple gesture.

Metade sorrindo e a outra metade (também querendo sorrir) realista, com o pé no chão. Não tem como ser 100% sonhadora... mas bem que eu gostaria.
Não que eu sorria por viver no mundo da panqueca, mas por estar feliz por acontecimentos recentes (pode ter certeza que não é por causa de 2016). Eu descobri que sou o tipo de pessoa que nasceu de bumbum virado para a lua (literalmente), tem sete vidas e pode passar debaixo de muitas escadas carregando vários gatinhos pretos. Ainda assim, com azar ou não, não tenho o direito de reclamar um "ai" da vida.
Domingo passado eu assisti a um filme daqueles que deixam o coração na mão e quando os créditos começam a subir você ainda tá meio paralisado pela história. Chama-se O menino do pijama listrado, baseado em um livro narrado no contexto da segunda guerra (autoexplicativo). Pois bem, levantei do sofá muito triste, mas com uma vontade de viver!
Tenho uma família bem grande e complicada, mas somos unidos, isso que importa. Tenho saúde para continuar seguindo em frente. Tenho pessoas pelas quais eu me lançaria da ponte Rio-Niterói feliz da vida e pedindo mais! Sou meio ceguinha, mas ainda assim consigo ler meus livros que me trazem tanta felicidade. Consigo ouvir músicas e sou feliz até por poder cantar debaixo do chuveiro. E acima de tudo, eu admiro os pequenos gestos, aqueles imperceptíveis que me deixam com um sorriso de orelha a orelha.
Sei que nem tudo é rosa. Não estou pedindo que seja, tampouco dizendo que tudo é. Mas tenho a certeza que mesmo depois de um furacão, é possível levantar a cabeça e construir tudo de novo. Tenho muitas razões para isso.